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Humanização do parto e do nascimento

Por: Ramy Arany

Técnica ou consciência?

O Brasil já ganhou o título de “campeão” das cesáreas pré-agendadas, atingindo um percentual de quase noventa por cento (de cesáreas) na rede particular de saúde, contra os quinze por cento estabelecido como meta na maioria dos hospitais e maternidades da rede pública.

Esta questão, contudo, não deve ser discutida apenas através de dados estatísticos, pois se trata de algo muito além:

– Por que as mulheres brasileiras estão permitindo e preferindo a cesárea agendada ao invés do parto natural, (também chamado de humanizado)?

– Por que os médicos estão preferindo a cesárea ao parto natural?

Somente estas duas perguntas são suficientes para uma séria discussão envolvendo várias áreas profissionais e várias questões existenciais bastante delicadas.

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Humanização do parto e do nascimento

Existe algumas questões culturais muito sérias aqui no Brasil:

– a difusão da idéia de que o parto natural é sinônimo de dor e de sofrimento e que a cesárea resolve esta questão;

– que o parto natural é muito perigoso e que a cesárea é segura (tanto para a mãe, bebê e médico);

– que o parto natural é incerto quanto ao dia e hora, demorado e que a cesárea agendada é mais prática (tanto para a mãe quanto para o médico);

– alguns “mitos” impeditivos para o parto natural (circular de cordão, certas posições do bebê).

Sendo assim, as gestantes passam o ciclo da gestação ouvindo várias e várias histórias que acabam lhe infundindo o medo e a desconfiança sobre o natural e a natureza É necessário reconhecer que a maneira como o ser nasce e é recebido pode determinar uma série de situações de seu próprio corpo. Ouvem de seus próprios médicos, que, também, acreditam nisto por estarem distantes do natural, bem como presos a medos (medo de complicações, medo de serem processados, de perderem o CRM, etc.) e com isto se protegem e se garantem através da cesárea.

Os médicos estão a cada dia perdendo mais e mais suas capacidades de realizarem partos naturais e as mulheres de parirem naturalmente. Com isto, o parto hoje se torna um ato médico quando na realidade é um rito de passagem, um momento sagrado para a mãe, para o pai, para o bebê, e para a família e amigos. A gestação e o nascimento é da natureza onde o corpo da mulher é preparado e sabe gestar e parir.

A distância do natural está invertendo o movimento natural do nascimento. Desta forma, este momento se torna frio, técnico, rude e não acolhedor tanto para a mãe quanto para o bebê. Mas para mudar esta situação é necessário vontade, escolha e reconhecimento da importância do retorno ao parto natural. É necessário reconhecer o valor da natureza e dos processos naturais. É necessário transformar as crenças e os valores que levaram tanto a mulher quanto ao profissional à preferência ao artificial, técnico, invasivo.

É necessário reconhecer que a maneira como o ser nasce e é recebido pode determinar uma série de situações na sua vida. É muito importante, por exemplo, para a criança que ela seja colocada no seio de sua mãe logo após seu nascimento; que ela sinta o contato com sua mãe (cheiro, pele); que ela seja acariciada por seu pai; que as mãos que a tocarem sejam calmas, amorosas, delicadas). Tudo isto é muito prejudicado tanto na cesárea quanto num parto não humanizado (parto normal hospitalar). O próprio cordão umbilical deve ser cortado somente após parar de bater, com calma e amor.

A humanização assim desta forma, se transforma em consciência e não somente regras exigidas pela humanização, ou uma técnica. A consciência do amor, da doação, do acolhimento, do apoio, do carinho tanto para a mãe quanto para o bebê é a verdadeira humanização.